
Encontro na Feaagri aponta o gargalo do setor: de cada cinco quilos de mel produzidos no noroeste, apenas um chega legalizado no mercado
A apicultura do noroeste do Rio Grande do Sul é maior do que aparenta. É o que mostram os números apresentados durante o 2º Encontro de Apicultores, realizado nesta quinta-feira, 5, no auditório Iglenho Araújo Burtet, no Parque de Exposições Siegfried Ritter, em Santo Ângelo, dentro da programação da Feira das Agroindústrias e da Agricultura Familiar (Feaagri). O público, na casa das centenas, acompanhou um ciclo de palestras voltado à técnica, à genética, ao mercado e ao valor terapêutico do produto.
A abertura ficou a cargo do presidente da feira, Daniel Casarin, e da embaixadora Emilly Saratt. A coordenação foi do vice-presidente da Feaagri Missões e organizador do encontro, Diomar Formenton, que articulou o apoio de Emater, Senar, Sebrae, Maxbem, Sindicato Rural e da Associação dos Apicultores de Santo Ângelo (Apisa).
Um setor consolidado, com raízes na agricultura familiar
O panorama regional foi traçado pelo médico-veterinário Jorge Lunardi, da Emater/RS, que atua na regional de Santa Rosa, estrutura que abrange 45 municípios e reúne as regiões da Fronteira Noroeste e das Missões. Segundo ele, a atividade melífera já se apresenta como cadeia madura, com efeito socioeconômico e ambiental relevante e forte presença de pequenas propriedades.
Os dados dimensionam essa força: cerca de 490 toneladas de mel por ano, o que representa faturamento aproximado de R$ 10 milhões anuais aos produtores. O potencial, porém, é muito maior. Das mais de 37 mil propriedades rurais da região, pouco mais de 1.800 trabalham com apicultura, o que evidencia um universo de produtores ainda fora da atividade.
O gargalo da formalização
Se a produção impressiona, a comercialização ainda trava. Apenas 20% do mel regional passa por legalização ou agroindustrialização, os outros 80% circulam à margem dos canais formais. O Rio Grande do Sul conta com 105 agroindústrias de mel legalizadas, e somente 13 delas estão no noroeste gaúcho.
O caminho para reverter esse quadro passa por política pública e assistência técnica. “O governo do Estado e a Emater têm programas de incentivo aos apicultores, por meio do PEAF, o Programa Estadual da Agricultura Familiar”, destacou Lunardi. A regularização, segundo ele, além de abrir mercado, agrega valor ao produto e garante segurança ao consumidor.
Conhecimento repartido entre quem produz
O encontro também cumpriu o papel de nivelar informação de ponta. Subiram ao palco Aldo Machado (Farsul), Victor Carraro (Senar/RS) e Leandro Rittel (Sebrae/RS). Já o especialista em genética Fabiano da Silva Pazini, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, trouxe avanços no melhoramento das colmeias.
A programação incluiu ainda a apresentação de um caso de sucesso local na produção e comercialização de mel, protagonizado pelo jovem apicultor Lucas Silveira e apresentado por Vladimir Reis, presidente da Apisa, provando que é possível transformar manejo técnico em negócio rentável dentro da própria comunidade.
A feira como elo da cadeia
“É justamente aí que a Feaagri Missões se firma como peça estratégica. Uma feira de agroindústrias e agricultura familiar é ambiente onde produtor encontra extensionista, onde jovem encontra mercado, onde a informalidade encontra o caminho da legalização. Ao abrigar um encontro técnico dessa densidade e simultaneamente exibir o mel na vitrine ao consumidor, o evento encurta a distância entre a colmeia e a prateleira”, pontuou Diomar Formenton, coordenador do evento.
Para Formenton, fortalecer a apicultura missioneira significa ampliar renda no campo, diversificar a propriedade, conservar polinizadores e manter a família rural no seu território. Significa dar visibilidade a um produto de qualidade. “A apicultura do noroeste gaúcho já provou que sabe produzir. E o encontro mostrou que existe caminho, apoio técnico e disposição coletiva para isso”, concluiu.
Texto: Tarso Weber | Fotos: Fernando Gomes