
O jornalismo esportivo gaúcho perdeu um dos grandes nomes de sua história. Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, morreu na madrugada desta quarta-feira (28) aos 70 anos. Ele estava internado desde domingo (25) no Instituto de Cardiologia, de Porto Alegre, devido a uma infecção pulmonar que evoluiu para um quadro generalizado.
Ainda não há informações sobre velório e despedida do jornalista.
O comunicador do esporte do Grupo RBS marcou o público pela versatilidade, pelo carisma e pelas frases de efeito, tão engraçadas quanto sarcásticas.
Suas tiradas preencheram as ondas do rádio nos últimos 27 anos (estreou em 1999) e as redações de jornalismo por mais de cinco décadas. As sentenças certeiras, de tão naturais, faziam parecer que ele sempre tivera intimidade com o microfone. Embora a ligação com o rádio remeta à infância, devido ao trabalho do pai, foi "juntando as pretinhas", como carinhosamente chamava as letras impressas nos jornais, que teve contato com a comunicação desde o primeiro dia da carreira.
A longa vivência no hipódromo e o carisma o tornaram um contador de histórias inusitadas, sempre acompanhadas da inconfundível risada, fosse no ar ou nos corredores. Não era raro vê-lo com uma plateia atenta ouvindo os seus causos.
Não se pode ir pra guerra com um secador de cabelo
GUERRINHA
Estudante de Jornalismo na PUCRS, Guerrinha publicou suas primeiras palavras no Jornal Hoje, criado pela RBS nos anos 1970. Logo em seguida, passou a acompanhar o cotidiano do Jockey Club para a Folha da Manhã e, depois, para o Correio do Povo.
À época, as provas mereciam destaque de página diária, visto que os cavalinhos, como ele gostava de se referir aos animais, também eram uma das paixões de Breno Caldas, dono da Empresa Jornalística Caldas Júnior, da qual os dois jornais faziam parte.
O retorno ao Grupo RBS ocorreu em 1983, quando, a convite de Emmanuel Mattos, passou a escrever sobre assuntos hípicos em Zero Hora. Embora assumisse o conhecimento sobre o prado, afirmava que ganhou a oportunidade porque ninguém queria tratar do tema.
O espaço dedicado ao turfe foi minguando até que, em 1993, a cobertura chegou ao fim devido ao público diminuto. A partir dali, começou a trabalhar com futebol.
Guerrinha passou a fazer a cobertura do Inter em Zero Hora.
Não dá pra servir farofa em restaurante com ventilador de teto
GUERRINHA
A transição foi um "parto sem dor". Afinal, o futebol também fazia parte do cotidiano do jornalista. Foram anos percorrendo os corredores do Beira-Rio atrás de informações.
Guerrinha sentenciava que só ganha na loteria quem compra o bilhete, então é preciso arriscar. No final daquele século, começou a se aventurar fora das páginas do jornal, às vezes com a necessidade de receber um empurrãozinho.
A transformação em um homem de rádio iniciou-se em 1999, quando a Gaúcha lançou, sob a grife de Paulo Roberto Falcão, o programa de entrevistas Falcão na Gaúcha, coapresentado por ele. Em 2014, três anos após a saída do ex-jogador da emissora, foi criado o Paredão do Guerrinha, atração com a mesma ideia do projeto anterior.
Dormindo no gelo e acordando suado
GUERRINHA
Bem antes, na virada do milênio, a atuação profissional no meio impresso tinha ganhado um capítulo importante. Em 17 de abril de 2000, quando o Diário Gaúcho começou a circular, ele estreou a coluna Guerra Total. A principal marca de seu espaço era a perguntinha, um questionamento instigante e irreverente que fazia o leitor refletir sobre o tema do momento.
A entrada na TV foi tão inusitada quanto suas frases. No começo dos anos 2000, a RBS TV transmitia o Lance Final nas noites de domingo. Apresentado por Pedro Ernesto Denardin, a bancada contava com Luiz Carlos Silveira Martins, o Cacalo, como representante gremista, e Ibsen Pinheiro como representante colorado. Ibsen deixou o programa para se dedicar à vida política. Guerrinha foi o escolhido para substituí-lo.
Se beleza fosse crime, eu seria inocente
GUERRINHA
Duas questões se impunham naquele momento. Uma era que ele não se via como alguém que trabalharia na televisão. Além de não ter intimidade com a câmera, gostava de brincar que se beleza fosse crime, ele seria inocente. Convocado para fazer um teste, utilizou todas as artimanhas possíveis para não ser aprovado. Sua intenção não funcionou. Foi chamado para conversar com Nelson Sirotsky, então presidente da RBS.
Ter de se identificar como colorado era visto como encrenca, afinal, "restaurante que serve farofa não tem ventilador de teto". A pergunta feita a ele era simples e tinha duas opções.
— O Nelson me perguntou assim: "Tu preferes ser identificado com a torcida colorada na RBS ou isento em outro lugar?". Minha resposta foi rápida: "A que horas tenho que estar lá?" — costumava contar quando questionado sobre o assunto.
A estreia no Sala de Redação não tardou. Em 2004, foi convocado para cobrir as férias de Kenny Braga. Guerrinha sentou na bancada do mais tradicional programa de debates esportivos do Rio Grande do Sul para não sair mais. Como ele dizia, "não se vai para guerra com uma escova de dentes". Ele chegou à bancada munido de um arsenal de frases para participar da acalorada troca de ideias no horário do almoço.
Uma das tiradas mais famosas foi apelidada por Pedro Ernesto Denardin como "Lei Guerrinha". Ela tenta explicar aquelas mudanças inexplicáveis feitas por treinadores de futebol quando tudo parece correr bem. "Se algo deu certo, então tem que mudar", diz o artigo único da Lei.
As sacadas oportunas e as opiniões ferinas casaram com o perfil do programa e o transformaram em um dos participantes mais queridos pelo público. O receio de sofrer retaliações por se identificar como colorado se esfarelou. A acidez nos comentários para os dois lados fez com que ganhasse admiradores entre vermelhos e azuis, uma marca mantida até o fim da carreira e da vida, nesta segunda-feira.
Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, deixa a esposa, Kathia, as filhas Michelle e Karine e três netos.
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