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Trump decide nesta quarta-feira se aplica novo tarifaço ao Brasil; entenda como medida pode afetar o RS

Trump decide nesta quarta-feira se aplica novo tarifaço ao Brasil; entenda como medida pode afetar o RS
15/07/2026 às 09:07

Após pouco mais de um ano de reviravoltas, o impasse comercial entre Estados Unidos e Brasil pode ter novo capítulo nesta quarta-feira (15). A data marca o fim do prazo para que o presidente americano Donald Trump decida se aplicará novas tarifas sobre produtos brasileiros. A definição ocorre no âmbito da possível sobretaxa de 25% a uma ampla lista de itens exportados pelo Brasil.

Com a iminência de afetar boa parte da indústria de produtos manufaturados no país, a entrada em vigor de um novo tarifaço ameaça setores exportadores do Rio Grande do Sul, como os de madeira, calçados e tabaco. Entidades estimam que uma nova sobretaxa pode retomar problemas observados em 2025, como fechamentos de plantas e de postos de trabalho. Como alternativa, parte das entidades aposta em uma ampliação da lista de exceções.

— De forma geral, os exportadores de manufaturados serão os mais afetados. Porque as commodities têm vida própria para sobreviver no mercado internacional. O efeito nas commodities seria muito pequeno. Basicamente, os manufaturados, seja calçados, seja máquinas, equipamentos, seja confecções, teriam um impacto maior — resume o presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

Idas e vindas
A decisão de Trump ocorre após um vaivém que envolveu uma tarifa inicial de 10%, o anúncio de uma sobretaxa de 50%, recuos e imbróglio judicial. Paralelamente ao anúncio da sobretaxa de 50%, em julho de 2025, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) abriu uma investigação dentro da chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, para analisar supostas práticas comerciais desleais por parte do Brasil.

Ao longo dos meses seguintes, a política tarifária dos Estados Unidos passou por revisões, listas de exceções, negociações diplomáticas e disputas judiciais, até que o USTR propôs uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, que está no centro da decisão desta quarta-feira. Relembre os principais fatos.

Linha do tempo

  • 2 de abril de 2025

No chamado “Dia da Libertação”, quando anunciou uma série de tarifas recíprocas contra diversos países, Donald Trump estipulou uma alíquota de 10% sobre produtos brasileiros.

  • Julho/agosto de 2025

Após tentativas de negociações, Trump propõe uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros. Em paralelo, o USTR abre uma investigação contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A tarifa entra em vigor em agosto, mas com uma lista de exceções que retirava cerca de 700 produtos da cobrança adicional.

  • Fim de 2025 e início de 2026

O tarifaço passa por negociações, revisões e questionamentos jurídicos nos Estados Unidos.

  • 1º de fevereiro de 2026

Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou as tarifas impostas por Trump a diversos países e determinou a reversão da medida.

  • 1º de junho de 2026

O USTR conclui a investigação aberta pela Seção 301 e aponta práticas brasileiras que considera prejudiciais aos interesses comerciais americanos. O órgão propõe uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.

  • 15 de julho de 2026

Prazo para o governo americano decidir sobre a aplicação da nova tarifa.

Impactos no RS

Com a iminência de um novo tarifaço, parte da indústria gaúcha vive a angústia de repetir cenário registrado no ano passado, marcado por queda nas exportações, redução de operações e risco de fechamento de plantas e de postos de trabalho.

Material de referência geográfica

A Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) estima que a implementação das novas tarifas americanas poderá impactar 50,7% (US$ 834,2 milhões) do valor total das exportações do Rio Grande do Sul para os Estados Unidos. Dentro dessa estimativa, a maior parcela (US$ 828,5 milhões) estaria sujeita a uma sobretaxa adicional de 37,5%. Esse percentual leva em conta os 25% discutidos atualmente no âmbito da investigação do USTR e outros 12,5% em discussão pelas autoridades americanas.

Segundo a Fiergs, a eventual imposição de tarifas adicionais afeta quase integralmente as mercadorias industrializadas, com destaque para perdas de competitividade e quedas nas exportações de setores como armas e muniçõescouro e calçadostabaco e madeira.

“Esses setores totalizaram 106.646 empregos. É importante destacar que este montante serve para dimensionar a relevância econômica dessas cadeias, embora o impacto não atinja a totalidade dos postos de trabalho, afetando-os apenas em determinada medida”, diz a entidade, em nota à reportagem.

Economista e professor do Programa de Pós-Graduação em Gestão e Negócios da Unisinos, Marcos Lélis afirma que o impacto é fortemente concentrado e severo em setores específicos que possuem alta dependência do mercado americano, como os citados pela Fiergs.

— Acho que a gente pode ver alguns efeitos mais regionalizados. Por exemplo, a gente tem a parte toda de calçado e de indústria bélica, que afeta o Vale dos Sinos. Tem também a parte de fumo que está ali na região de Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo. Então, algumas regiões podem ser mais afetadas do que a média estadual — avalia Lélis.

O professor do Programa de Pós-Graduação profissional em Economia (PPECO) da UFRGS Mauricio Weiss reforça o impacto regional no mercado de trabalho em caso de eventual tarifaço:

— São setores importantes para mão de obra, uma mão de obra mais qualificada. Então pode ter alguns impactos regionais, né, nessas regiões que concentram as atividades madeireira e moveleira, por exemplo, afetando inclusive a questão do mercado de trabalho. Porque é uma mão de obra que tem uma remuneração, na média, superior ao do comércio e da agricultura.

Setores

O presidente do Sindimadeira RS, que representa o setor da madeira no Estado, Leonardo De Zorzi, afirma que a possível nova sobretaxa ameaça a competitividade no mercado dos Estados Unidos, principal comprador. Isso pode provocar efeitos parecidos com os observados no ano passado, como redução em operações.

— Daqui a pouco, temos uma ameaça de fechamento de plantas novamente. O setor vinha se recuperando bem. Os Estados Unidos são, de longe, o principal mercado dentro da madeira de floresta plantada. Então, a gente acompanha com muita insegurança tudo o que está acontecendo e está muito preocupado caso essas tarifas sejam implementadas — comenta De Zorzi.

No ramo dos calçados, o setor avalia que a tarifa adicional seria prejudicial também para a economia norte-americana.

— Estamos otimistas, mas com os dois pés no chão. A argumentação foi bastante técnica e deixou muito claro que não existe razão para a imposição das novas tarifas. Seria uma decisão “perde-perde”, pois impactaria, além da indústria calçadista nacional, o varejista norte-americano e, consequentemente, o consumidor local — destaca o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira.

Também entre os principais afetados, o setor de tabaco acompanha com atenção os possíveis desdobramentos. Presidente do Sinditabaco-RS, Valmor Thesing, destaca que o mercado americano absorve, historicamente, cerca de 9% das exportações de tabaco gaúcho, e a realocação do excedente para outros países é limitada:

— Caso a tarifa entre em vigor e se mantenha, haverá uma provável redução do volume de exportação para os Estados Unidos. A gente prevê que deve ter uma redução de até 40% nos valores exportados até o fim do ano.

 

g1

 
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