
Em um cenário em que a escola é cada vez mais desafiada a desenvolver competências relacionadas à ciência, à tecnologia, ao pensamento computacional e à inovação, os brinquedos científicos vêm se consolidando como uma importante estratégia de apoio ao trabalho pedagógico, contribuindo para aproximar os estudantes da cultura científica desde os primeiros anos da educação básica.
Diferentemente dos brinquedos tradicionais, cuja finalidade principal é o entretenimento, os brinquedos científicos são planejados para transformar conceitos científicos em experiências concretas de aprendizagem. Ao construir, testar, modificar e utilizar esses recursos, o estudante compreende fenômenos, formula explicações, valida hipóteses, identifica erros, propõe soluções e desenvolve competências relacionadas ao pensamento científico, à criatividade e à resolução de problemas.
Mais do que recursos didáticos, os brinquedos científicos constituem uma metodologia de ensino baseada na aprendizagem ativa e na interdisciplinaridade. Em um único brinquedo é possível integrar conhecimentos de Matemática, Física, Química, Biologia, Computação, Engenharia, Artes e Design, favorecendo uma aprendizagem conectada com situações reais.
Essa abordagem torna-se ainda mais relevante diante das recentes transformações da educação brasileira. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece o desenvolvimento de competências relacionadas à cultura digital e ao pensamento computacional, enquanto o Complemento à BNCC para Computação amplia esse compromisso ao tornar obrigatória a inserção da Computação em toda a Educação Básica, desde a Educação Infantil. Esse novo cenário exige que professores e escolas desenvolvam práticas pedagógicas capazes de integrar programação, algoritmos, resolução de problemas e cultura digital ao cotidiano escolar.
Foi justamente para contribuir com esse desafio que surgiu, na URI Santo Ângelo, a metodologia dos Brinquedos Científicos.
Idealizada pela Profa. Cristina Paludo Santos, a proposta nasceu com o propósito de apoiar professores e estudantes da Educação Básica na inserção da Computação, da ciência e da tecnologia no cotidiano escolar por meio da construção de brinquedos que articulam conhecimentos científicos, criatividade, investigação e inovação.
A metodologia propõe que os próprios estudantes sejam autores dos brinquedos, participando de todas as etapas do processo: pesquisa, planejamento, construção dos protótipos, realização de testes, aperfeiçoamento das soluções e apresentação dos resultados para a comunidade. Dessa forma, o brinquedo deixa de ser apenas um objeto para tornar-se um instrumento de produção do conhecimento científico.
Uma metodologia que se tornou referência
O que começou como uma proposta de apoio às escolas da região das Missões rapidamente ultrapassou os limites da sala de aula e consolidou-se como uma metodologia de educação científica desenvolvida na URI Santo Ângelo.
Inicialmente aplicada junto a escolas públicas da região, a metodologia passou a integrar projetos de extensão universitária voltados à formação de professores e à popularização da ciência. Com o amadurecimento das experiências, a iniciativa conquistou apoio de agências de fomento, como o CNPq e o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), possibilitando sua ampliação e a realização de mostras, oficinas e atividades de divulgação científica envolvendo milhares de estudantes da Educação Básica.
Atualmente, a metodologia está presente em escolas de aproximadamente 25 municípios da região das Missões, contribuindo para que professores desenvolvam práticas pedagógicas alinhadas às novas demandas da educação contemporânea e aproximando crianças e jovens do universo científico desde os primeiros anos da escolarização.
O impacto da proposta também fez com que ela fosse incorporada às atividades de ensino da própria universidade. No curso de Licenciatura em Matemática da URI Santo Ângelo, acadêmicos desenvolvem brinquedos científicos que articulam conceitos matemáticos com a valorização da história e da cultura regional. Nesta edição, a temática escolhida celebra os 400 anos das Missões Jesuíticas, demonstrando que ciência, matemática e patrimônio cultural podem dialogar em uma mesma experiência educativa.
A metodologia também passou a integrar pesquisas desenvolvidas no Programa de Pós-Graduação em Ensino Científico e Tecnológico (Mestrado), onde os brinquedos científicos são investigados como recursos para o ensino de Ciências, formação de professores, desenvolvimento do pensamento computacional e popularização da ciência, fortalecendo a produção científica sobre a temática.
Os resultados alcançados evidenciam que os brinquedos científicos deixaram de ser apenas uma estratégia de ensino para constituírem uma linha de atuação em ensino, pesquisa e extensão, envolvendo docentes, pesquisadores, estudantes da graduação, da pós-graduação e da Educação Básica.
Popularizar a ciência por meio da experimentação
As ações desenvolvidas vêm demonstrando que a ciência pode ser aprendida de forma criativa, colaborativa e acessível. Os brinquedos científicos favorecem a construção do conhecimento por meio da experimentação, estimulam o protagonismo estudantil, aproximam universidade e escolas e fortalecem a cultura científica na comunidade.
Mais do que ensinar conteúdos, a proposta busca desenvolver competências relacionadas à investigação, ao pensamento crítico, à criatividade, à comunicação, ao trabalho em equipe e à resolução de problemas, preparando crianças e jovens para os desafios de uma sociedade cada vez mais marcada pela ciência, pela tecnologia e pela inovação.
Para a professora Cristina Paludo Santos, os brinquedos científicos representam muito mais do que uma estratégia de ensino. "Quando transformamos o brincar em uma oportunidade de investigar, criar e experimentar, mostramos que a ciência não é algo distante ou restrito aos laboratórios. A popularização da ciência começa quando o estudante deixa de apenas observar os fenômenos e passa a construir o conhecimento com as próprias mãos."
Escolas interessadas em desenvolver a metodologia dos Brinquedos Científicos ou em participar das ações de formação de professores e oficinas promovidas pela URI Santo Ângelo podem entrar em contato pelo e-mail paludo@san.uri.br ou pelo telefone (55) 3313-7968.