
"A Sophia tem só cinco aninhos, mas já vive uma luta que nenhuma criança deveria enfrentar". A descrição de um vídeo nas redes sociais relata um drama real, mas é uma estratégia usada por golpistas. Os estelionatários passaram a utilizar a imagem de uma menina gaúcha, de três anos, moradora de Campo Bom, no Vale do Sinos, que luta contra o câncer infantil, para criar campanhas falsas na internet.
Nesta terça-feira (14), a Polícia Civil realiza a Operação Sophia em cinco Estados — Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Pernambuco — contra suspeitos de estarem por trás desse esquema criminoso. A investigação é da Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos, do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos. Até o momento, 11 pessoas foram presas na ação.
Segundo o delegado João Vitor Heredia, que coordena a operação, são cumpridos 19 mandados de prisão preventiva e 17 mandados de busca e apreensão. No Rio Grande do Sul, uma ordem de prisão e outra de busca são cumpridas em Passo Fundo, no norte do Estado.
Conforme a investigação, o alvo em Passo Fundo é suspeito de atuar no núcleo financeiro. Ele teria utilizado uma empresa em seu nome para abrir uma conta junto a uma intermediadora de pagamentos. Essa conta funcionava como uma espécie de “conta de passagem”, responsável por receber diretamente, por meio de QR Codes Pix, valores pagos por pessoas que acreditavam estar realizando doações para o tratamento da menina Sophia. A conta vinculada ao investigado teria arrecadado aproximadamente R$ 31,7 mil relacionados à falsa campanha. Depois disso, os valores foram transferidos para outros integrantes.
— A suspeita é de que ele tenha cedido conscientemente sua identidade e sua estrutura empresarial para permitir o recebimento dos valores das vítimas, proteger os demais integrantes e permitir a posterior distribuição e ocultação do dinheiro obtido com as falsas doações — afirma o delegado João Vitor.
Conforme a investigação, a fraude envolvia a criação de falsas campanhas de arrecadação de valores, com utilização indevida de fotos, vídeos e histórias reais de pessoas, especialmente de crianças em tratamento de doenças graves. No caso da menina de Campo Bom, a própria família percebeu que a imagem dela estava sendo usada dessa forma.
Os pais de Sophia mantém somente um perfil no Instagram, onde compartilham o enfrentamento da doença e a rotina da menina. Os golpistas passaram a desviar valores, que nunca chegaram até a família.
Conforme a polícia, os golpistas faziam uso também de publicidade patrocinada para impulsionar os anúncios falsos e ampliar o alcance, atingindo mais vítimas. Havia ainda o redirecionamento para sites falsos, ao clicar em anúncios. Dessa forma, as vítimas acreditavam estar contribuindo por meio de sites, como a plataforma Vakinha. Para tentar ocultar os verdadeiros destinatários dos valores, os golpistas usavam intermediadoras de pagamento, empresas de fachada, contas de terceiros, domínios registrados em provedores estrangeiros, mecanismos de camuflagem de sites e contas de redes sociais previamente preparadas.
Uso de inteligência artificial
A investigação revelou que não se tratava de um golpe isolado, mas de uma estrutura criminosa organizada, com divisão de tarefas entre os seus integrantes. O grupo contava com responsáveis por diferentes etapas, como a criação e hospedagem de sites falsos, produção de vídeos, áudios e peças publicitárias fraudulentas, utilização de ferramentas de inteligência artificial, deepfake e clonagem de voz e impulsionamento dos anúncios, entre outros.
Durante a investigação, foram identificadas ferramentas utilizadas para manipulação de áudio e vídeo, sincronização labial, criação de avatares, clonagem de voz, remoção de metadados e camuflagem de páginas fraudulentas. Também foram localizados indícios de pesquisas por novas vítimas em situação de vulnerabilidade, especialmente crianças com doenças graves, demonstrando a continuidade e a profissionalização da atividade criminosa.
A investigação
A investigação teve início após a mãe da menina comunicar à Polícia Civil que imagens e vídeos de sua filha estavam sendo utilizados em anúncios pagos nas redes sociais para arrecadar falsas doações. A polícia passou a tentar identificar os responsáveis pela criação e manutenção da estrutura digital. A partir da análise dos dados, foi possível mapear o caminho dos valores e chegar a diversos investigados com funções específicas no esquema.
A investigação identificou, entre outros elementos, apenas em relação à falsa campanha que deu origem ao inquérito, ao menos R$ 294,5 mil diretamente rastreados entre chave Pix e gateways de pagamento. Além disso, a apuração revelou movimentações financeiras muito superiores em contas e empresas utilizadas pela organização, com destaque para uma empresa apontada como hub financeiro do grupo, que teria movimentado mais de R$ 1,7 milhão no período investigado.
A operação policial
Durante a operação, estão sendo cumpridas ordens judiciais de prisão preventiva e busca e apreensão em endereços residenciais e empresariais vinculados aos investigados, com o objetivo de apreender aparelhos celulares, computadores, documentos, mídias digitais, dispositivos de armazenamento, cartões bancários, contratos sociais, registros de acesso, credenciais, arquivos de sites, contas em plataformas digitais e demais elementos de prova.
g1rszh