
Visita incluiu sítios arqueológicos missioneiros, Centro de Tradições Gaúchas, Catedral Angelopolitana e Museu das Missões
Depois de uma extensa agenda de debates técnicos sobre política cultural no Brasil, o primeiro encontro de 2026 do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura encerrou nesta quinta-feira (12/3), em São Miguel das Missões (RS). A reunião, que iniciou na segunda-feira (9/3) e pautou temas como o impacto da Reforma Tributária no setor, reservou o último dia para apresentar a história e a cultura locais para os participantes do evento.
O roteiro, guiado pela professora e pesquisadora Nadir Lourdes Damiani, teve início nas ruínas da Redução Jesuítico-Guarani de São João Batista, no município de Entre-Ijuís (RS), no turno da manhã. Construído a partir de 1697, o sexto povoado missioneiro, distante 14 quilômetros de São Miguel das Missões e 30 quilômetros em linha reta de Santo Ângelo (RS), deixou marcas da antiga sociedade missioneira no local. Segundo Nadir, a construção foi um desdobramento da Redução de São Miguel, que chegava ao limite populacional. Ainda é possível identificar no sítio arqueológico, administrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a distribuição dos espaços da comunidade, as paredes da igreja, túmulos do século XVII e restos das casas do povoado.
“O trabalho de consolidação que está sendo feito nas paredes enfrenta dois desafios: preservação do meio ambiente e preservação da parte arquitetônica, por isso que as pedras estão numeradas, porque se trocar uma pedra de lugar, ela não vai ficar perfeita”, explicou a guia.
Em Santo Ângelo, o grupo foi recebido no Centro de Tradições Gaúchas (CTG) 20 de Setembro, ao meio-dia, para conhecer o típico churrasco gaúcho, acompanhado de arroz carreteiro e apresentações culturais. A invernada juvenil do CTG apresentou danças tradicionais e danças de salão. A secretária-executiva da Cultura do Estado de Tocantins, Ana Claudia Batista, disse que a experiência foi surpreendente. “Aprendi muito escutando sobre a cultura local, conhecendo sobre os primeiros habitantes do Sul, são informações que levarei ao meu Estado para compartilhar. A experiência da dança no CTG reflete a preservação da cultura para que a tradição não se perca, achei lindo”, afirmou.
Depois do almoço, os convidados visitaram lojas de artesanato e o local onde a Redução de Santo Ângelo Custódio foi fundada, em 1706. A área, onde hoje está a Catedral Angelopolitana, guarda resquícios do povoado. Nas janelas arqueológicas no entorno da igreja é possível identificar pisos originais e pedras das fundações do antigo edifício. No local, observa-se, entre outras relíquias missioneiras, uma escultura que representa o Cristo Morto, talhada em madeira há 400 anos pelos indígenas Guarani e que era utilizada até poucos anos atrás em procissões da Paixão de Cristo.
A praça Pinheiro Machado, em frente à Catedral, homenageia os povos missioneiros. O pórtico que dá as boas-vindas aos visitantes abre caminho para os arcos que representam Reduções brasileiras, argentinas e paraguaias. No Museu das Missões, instalado no prédio que já abrigou o centro administrativo municipal e o antigo gabinete da intendência, os convidados conheceram a história dos Guarani, os objetos descobertos pelos pesquisadores, como cerâmicas antigas, fragmentos das Reduções, e obras de arte sacra.
Nadir explicou que o edifício foi construído sobre o cemitério indígena e “quando as escavações arqueológicas descobriram os ossos enterrados, os especialistas em diálogo com a comunidade decidiram não remover os ossos e tudo foi mantido como estava”, contou.
Para o representante da Secretaria de Educação e Cultura do Acre e presidente da Fundação de Cultura Elias Mansour, Minoru Martins Kinpara, conhecer a história missioneira foi uma experiência inspiradora. “Para fazer uma imersão ainda maior eu vou levar um livro com essa história, porque ela é extremamente significativa para entender o que é esse Brasil multicultural. A história das Missões é algo fantástico”, declarou. Segundo ele, “o Fórum realizado aqui proporcionou esse momento ímpar de enriquecimento pessoal e do grupo como um todo, gerando um sentimento maravilhoso de pertencimento”.
Por fim, os integrantes do colegiado experimentaram o café missioneiro, servido no Tenondé Park Hotel, que sediou o encontro. Os sabores regionais à mesa do jantar incluíram doces e salgados, incluindo bolo de erva mate e feijão mexido e entrevero à missioneira, servido com aipim.