
Com um discurso marcado por referências à sua trajetória religiosa e pela defesa da pauta municipal, o deputado Sérgio Peres (Republicanos) assumiu, nesta terça-feira (3), a presidência da Assembleia Legislativa. Deputado de quarto mandato, Peres comandará o Legislativo do Rio Grande do Sul em um ano de articulação eleitoral e com a maior parte das alianças estaduais ainda indefinida.
— Como parlamentar no Estado, como pastor, (estamos) dedicando a vida pelas pessoas que estão debaixo do viaduto, que estão nos presídios, que se encontram na sua cela, nos lugares onde o poder público não alcança — disse Peres, após um prólogo sobre sua trajetória, a uma plateia composta por dezenas de autoridades e convidados, entre as quais oito pastores da Igreja Universal.
Ao tratar do municipalismo, bandeira que promete defender ao longo do ano, Peres cobrou a justa divisão das receitas com os municípios onde, destacou ele, surgem as vocações e onde se formam as identidades dos gaúchos.
— Eu não posso aceitar que lá na ponta não chegue a riqueza que é distribuída, que é onde é adquirido. É onde tudo acontece, é onde as pessoas estão. Então, quero fazer, junto com meus colegas parlamentares, com a Assembleia Legislativa, nós levarmos lá para os municípios. [...] Governador, eu sei o esforço que o senhor tem feito, de ter assistido, mandar recursos para o interior para evitar os engarrafamentos, o tumulto na Capital — disse Peres, sob o olhar do governador Eduardo Leite.
Considerado um deputado do baixo clero da Assembleia e alinhado com o Palácio Piratini, Peres valorizou, em seu discurso, a unidade do Parlamento e a qualidade indistinta dos seus 54 colegas de Plenário.
— A imprensa muito me perguntou, falando do ano eleitoral, onde poderia dar muitos embates, muito caloroso, o que seria feito? Meu caro presidente Pepe Vargas, eu sempre falei que os embates é bom, é bom quando é acalorado, é bom quando é discussão, pelo menos a mídia pega, dá mais "Ibope", mas nós sabemos que o nosso parlamento é maduro, cada deputado sabe das suas responsabilidades, e como dizia o Tancredo Neves, que briguem as ideias, mas não os homens. Então, essa divergência tem que ter, nós vamos debater, e junto com a mesa diretora, meus colegas que foram aqui eleitos, vamos poder discutir para que possamos dar o melhor de nós por essa Casa — acrescentou Peres.
Sem previsão de o governo do Estado encaminhar muitos projetos polêmicos aos deputados, parte dos debates na Assembleia em 2026 devem aparecer em meio à CPI dos Pedágios – comissão por meio da qual deputados de oposição esperam desgastar o governo Leite em período eleitoral.
Entre os primeiros projetos que Peres vai enfrentar como presidente, está o reajuste anual do piso do magistério. O texto deve ser encaminhado nos próximos dias pelo governador para análise, em regime de urgência, pelos deputados.
Ainda no primeiro semestre, os deputados devem também analisar a polêmica proposta de concessão para a iniciativa privada dos jogos de azar no Rio Grande do Sul, por meio da retomada da Lotergs.
O pastor evangélico Sergio Peres (Republicanos), 57 anos, é natural do interior de Caraá, no Litoral Norte. não tem filhos e reside em Cachoeirinha com a esposa Delani.
Quando Peres nasceu, Caraá ainda era distrito de Santo Antônio da Patrulha. Caçula de uma família de 18 irmãos, todos do mesmo pai e da mesma mãe, Sergio viveu e trabalhou na roça até os 19 anos.
Energia elétrica não chegava à residência dos Peres, e a rotina era simples. O deputado conta que os 18 partos foram realizados em casa, sem assistência médica. Conforme iam crescendo, os irmãos deixavam a propriedade em busca de emprego na área urbana, porque a terra era pouca e a comida por vezes insuficiente.
Sergio se mudou para Gravataí em 1987. Conseguiu emprego na Steigleder, indústria de refrigeradores então instalada em Porto Alegre. Ao final do segundo dia de trabalho, quase desistiu da vida na cidade. Passara duas noites sem dormir por causa dos pernilongos na casa em que estava hospedado. Foi salvo por um um colega de trabalho, que lhe apresentou um spray para matar os mosquitos.
Hoje, Peres conta com orgulho a trajetória na fabricante de geladeiras, onde foi de pintor a supervisor, por meio de sucessivas promoções até 1991. Ele também foi pequeno comerciante em Cachoeirinha, onde teve uma loja de revestimentos e carpetes.
O curso da vida começou a mudar em 1993, quando ingressou na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) como pastor auxiliar. Deu a largada em trabalhos comunitários da comunidade cristã, pavimentando o caminho rumo à política. A jornada o levou a ser nomeado pastor da Universal em 1996.
O primeiro mandato de deputado estadual veio em 2002. À época, os pastores da IURD não eram organizados em um único partido, como ocorre hoje no Republicanos — legenda que se expandiu e, atualmente, conta com alas que vão além da religiosa. Naquela ocasião, Peres foi eleito pelo PSB. Exerceu apenas um mandato e não concorreu à reeleição. Voltou para a atividade de pastor.
O retorno ao parlamento aconteceu em 2014, desta vez pelo Republicanos. Foi novamente eleito deputado estadual e se reelegeu em 2018 e 2022. No último pleito, alcançou 74.685 votos, garantido o seu quarto mandato, o terceiro consecutivo.
Virou tradição na Assembleia o desfraldar de uma bandeira pelos presidentes, com a realização de debates e apresentação de projetos que possam se tornar políticas públicas para o Estado. Peres resolveu adotar o municipalismo. Ele resgata o discurso de que o cidadão vive nas cidades e os prefeitos são os mais cobrados por avanços na prestação dos serviços básicos, como educação, saúde e infraestrutura rodoviária. O parlamentar aponta que as prefeituras ficam com a menor fatia do bolo tributário, apesar de estarem no contato mais estreito com o cidadão.
Na sua atuação parlamentar, Peres destaca a criação de subcomissão para discutir a situação dos municípios gaúchos sem acesso asfáltico. Essa é uma das suas prioridades.
Também ressalta a atuação em favor de políticas para a produção rural, como o projeto que tramita na Assembleia com o objetivo de incluir o mel na merenda escolar.
Peres ainda presidiu uma comissão especial que abordou a “importância da assistência espiritual nos presídios e unidades de tratamento de dependência química”, pauta em sintonia com a atuação como pastor.
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